quinta-feira, 24 de abril de 2014

A gente aqui no Olimpo

É tão lindo dizer que nasceu de uma mesa de sacrifícios cheia de sangue. Ainda escorre sangue do palco, mas não é de cabra. É bem artístico isso de exaltar o sangue. E o sofrimento. E a dor humana - dor de crise existencial, não dor de fome, não dor física. É que a luz que vem de cima cega e a gente esquece de pensar. O poder de estar em cima de um palco faz a gente pensar que pode tudo. A gente não pode, meus queridos. Não somos deuses. Não há nada mais humano do que nós. E o nosso desprezo pelo que outros dizem, e fazem. É que a gente pensa que pode perguntar e responder tudo pela arte. É que a sessão é de graça, então obviamente é popular, não? É que o nosso ego não cabe no mundo, então a gente faz arte pra gente mesmo. Que é pro meu ego bater no teu, e pro nosso ego aumentar. É que a gente lê os clássicos e esquece de aprender. A gente quer ser Prometeu e dar o fogo à humanidade, mas não quer descer do Olimpo. A gente brinca de ser deus e esquece de ser humano. E a gente fica aqui no Olimpo, dançando pros outros deuses. E a gente não consegue admitir que se inspira nos outros, a gente finge que é tudo novo, original. Já sabiam os gregos que se igualar aos deuses não terminava bem, a gente esquece dessa parte. A gente acha que por ir na vila fazer uma apresentação uma vez na vida já viu de tudo e pode falar de todos. A gente acha que é melhor que os outros. A gente gosta de dizer que o mundo nos despreza, que ninguém gosta da gente. E a gente despreza o mundo, a gente não gosta de ninguém. Nós queremos fazer um retrato da realidade, ou criar um mundo completamente novo, mas só aceitamos a nossa realidade, ou o nosso mundo novo. E a gente aqui no Olimpo brinca de criar e inventar, e ser deuses. A gente aqui no Olimpo não olha pra quem está abaixo - a gente sempre acha que os outros estão abaixo. A gente aqui no Olimpo não olha nem pro lado.

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