sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Zelda

Se eles pudessem nos colocariam todas em sanatórios, e nos deixariam lá até que o fogo nos consumisse. Como o fogo consumiu a mulher do quarto ao lado do meu. O fogo consumiu muito mais naquele 1947, mas principalmente aquela mulher. Ela gostava de dançar, dançava por horas a fio. Sempre dopada de remédios. Ela tinha esse brilho nos olhos de quem tem fogo guardado dentro do peito. Era louca de pedra. Louca como eu. Éramos todas loucas, somos todas loucas. Ela ria escandalosamente todas as vezes que contava a história de quando chamou os bombeiros, e disse a eles que o fogo estava dentro dela. Ela era o fogo. Escreveu um livro em seis semanas, todo aquele fogo virando palavras e histórias. Era louca. Ninguém me ouviu quando eu disse que o fogo tinha começado no quarto dela. "Impossível." O médico disse, o policial disse, todos disseram. Ninguém acredita nas mulheres - loucas ou não. Essa foi uma lição que eu aprendi anos antes de ir parar naquele lugar, e que ela nunca aprendeu.
Eu sei que o fogo começou no quarto dela. Começou dentro dela. Quando ela dançava, completamente dopada de antidepressivos, o fogo saía dela. Era como mágica. Ela dançava e o fogo dançava junto. No balé mais bonito que eu já vi. Ela era o fogo. Tanto que foi consumida por ele. Morreu daquele fogo que tinha guardado dentro do peito. Nenhum bombeiro conseguiria acabar com aquele fogo. Nenhum antidepressivo. Nada. Viver a sombra do marido famoso não apagou. A maternidade não apagou. Ser internada não apagou. Ela deve ter dançado tanto naquele dia, e devia estar tão dopada, que desistiu de controlar o fogo, deixou ele sair sem controle nenhum. Ela tinha tanto fogo dentro dela que um dia teve que sair de vez. Saiu incendiando tudo. O fogo dela não poupava ninguém, nem ela mesma. Me poupou por um golpe de sorte. Eu não estava no meu quarto, deveria estar, pro fogo dela me consumir também. Não me perdoo por essa falha, deveria estar lá e ser consumida pelo fogo como todas as outras. Pelo fogo dela, pelo nosso fogo. Por nós mesmas.



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