sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Sobre apagamento, bissexualidade e apoio

Nós existimos. Apagados. Renegados. Mas existimos. Nas ruas, nas praças, nos becos, na escola, no trabalho, na igreja. Nós existimos, apesar do senso comum nos negar essa existência. Não sei o que há de tão perturbador nessa existência, que é preferível ao mundo negá-la. Não, não somos o único grupo cuja existência é negada. Mas somos o grupo de quem posso falar, e mesmo assim não pretendo falar como grupo. Pois sei somente falar de mim, e não quero aqui universalizar experiências - não, o mundo já faz isso demais. Quero aqui falar de uma experiência, a única que conheço a fundo e da qual posso falar. Quero aqui falar de apagamento, mas não só disso, quero aqui falar de visibilidade. E da necessidade de apoio. Quero aqui falar de existência.

Pessoas bissexuais existem. Desculpem a repetição, mas ela é necessária. Necessária, pois eu mesma por muito tempo não acreditei nisso. Necessária, pois é preciso lembrar ao mundo sobre isso. Necessária, pois é preciso dizer a outras pessoas bissexuais que elas não estão sozinhas. Necessária, pois é preciso lembrar constantemente que nos apagar não elimina nossa existência. Bissexuais existem como qualquer outro ser humano, não são especiais de nenhuma maneira diferente. A bissexualidade por si só não altera caráter, nem transforma ninguém em nada. Bissexualidade não é poligamia, não é necessidade de sexo o tempo todo, não é infidelidade. Não é a maioria dos preconceitos que são espalhados por aí - pois não basta nos negarem a existência, é preciso que quando admitem que existimos nos transformem em um esteriótipo. Bissexualidade é atração por pessoas do mesmo gênero, e de gêneros diferentes que o seu. Cada pessoa bissexual experiencia essa atração de uma maneira diferente. Não existe um único discurso legítimo sobre bissexualidade. Não existem bissexuais verdadeiros, e outros falsos.

E é a partir dessa ideia falsa de que existem bissexuais mais verdadeiros que outros que começa o meu relato pessoal. Esse discurso não foi o único que me agrediu durante anos, mas foi um deles. A ideia passada por ele é que existem pessoas - principalmente mulheres, segundo a minha vivência - que não são realmente bissexuais, apesar de o dizerem. Cria-se uma narrativa legítima sobre bissexualidade, e padrões nos quais as pessoas bissexuais devem se encaixar. Como uma adolescente de 14, 15 anos, que está descobrindo detalhes sobre sua sexualidade, se sentiria ao ver esses padrões serem impostos? Ao ver esse discurso ser perpetuado? Nada bem, eu respondo, no meu caso. Perceber, não ainda admitir, que sente atração por mais de um gênero, é difícil em meio a tudo isso. Passei por um periodo de negação que não recomendo a ninguém. Periodo que afetou meu desenvolvimento emocional, minha relação com as pessoas, e principalmente minha relação comigo mesma. Negava o que eu sentia, mas não deixava de sentir, não deixava de ter dúvidas. Eu percebia uma certa não-heterossexualidade, mas não sabia se poderia chamar de bissexualidade. Já que quando - raramente - falavam de bissexuais era sempre para falar sobre como alguém não era realmente bissexual. Eu nunca me encaixei no padrão 50/50 de atração, metade atraída por mulheres, metade por homens, e muito menos na binariedade disso - descobri depois que não sou só eu, e que essa binariedade é muitas vezes presumida por pessoas não bissexuais. Foi um longo caminho de dúvidas até minha auto-aceitação - que só foi completa depois que me envolvi com o feminismo.

Depois de admitir e aceitar a minha bissexualidade, encontrar o termo foi de extrema importância. Eu tinha agora algo com o que me identificar, um grupo a quem pedir apoio caso precisasse. Encontrar apoio em um mundo que te nega existência é fundamental. Penso as vezes em como poderia ser mais confortável me dizer lésbica nesse momento - pensando que ninguém duvidaria disso - e muitas vezes não corrijo as pessoas quando assumem que sou lésbica, corrigir as pessoas o tempo todo é algo que cansa. O que me faz não me acomodar nisso é o fato de que existem outras pessoas bissexuais que podem estar passando pelo que eu passei, e é importante que elas saibam que nós existimos. A vida teria sido mais fácil se tivessem me dito que eu poderia existir, e não precisava me encaixar em padrão nenhum. Não sei o quanto isso é politicamente expressivo, ainda não pensei sobre o assunto, mas ele é sem dúvidas necessário.

Não vejo a bissexualidade como apenas um ato político, ou posição política, como percebo em alguns discursos. Claro que se desviar da norma mono e heterossexual pode ser visto como uma atitude política, e pode ser uma atitude política, mas não é somente isso. Reduzir uma sexualidade a um ato político me parece limitador. Não existo para ser exemplo de como transgredir a norma. Não existo para ser modelo de subversão. Minha sexualidade não é só isso. Existe também o que não é político, o que não é subversão. E cansa precisar transgredir o tempo todo. Cansa. Transformar a bissexualidade em um ideal político não é o que eu quero. Não nego que pode ser uma posição política me afirmar como bissexual em alguns momentos, mas as vezes tudo que eu quero é ser quem sou sem precisar pensar nos efeitos políticos disso.

Se até hoje não desisti de continuar falando é porque penso em quem precisa ouvir. Não necessariamente para quem quer se educar, ou deixar de lado preconceitos. Mas principalmente para quem precisa de apoio, para quem procura onde se encaixar - as vezes tudo que queremos é nos encaixar em um grupo para saber que não estamos sozinhos. As pessoas bissexuais existem, e não estão sozinhas.

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