sexta-feira, 22 de março de 2013

Clara


Ela encarava aquele cigarro meio fumado como se ele pudesse lhe dar alguma resposta, como se não fosse óbvio que ela estava perdendo tempo e destruindo os pulmões. Ela pensou por alguns minutos sobre os seus últimos romances. Nada muito profundo, nada que tivesse deixado o coração partido. Na verdade nenhum deles tinha um grande significado. Ela deu mais uma tragada no cigarro, e decidiu que era a hora de parar. Parar? Parar de fumar? De sofrer? De se meter em romances sem sentido? Era hora de parar, apenas parar. De comer comida congelada? De ir dormir tão tarde? De chorar? De tomar os remédios? De fumar?
Ela acendeu outro cigarro e encarou a fumaça se esvair no ar. Ou seria hora de começar? Começar a se exercitar? A procurar emprego? A arrumar o quarto? A arrumar a cama? A arrumar a vida? Talvez fosse hora de começar. A fumar outra marca de cigarros? A pintar as unhas? A estudar francês? A amar de verdade?
Talvez fosse a hora de começar algumas coisas, e de parar outras. Ela faria uma lista se conseguisse seguir listas. E pararia de fumar se conseguisse parar de fumar. E dormiria mais cedo se conseguisse dormir mais cedo. E cozinharia se soubesse cozinhar. E arrumaria o quarto se tivesse paciência. E compraria outra marca de cigarros se tivesse dinheiro. E pintaria as unhas se tivesse coordenação motora suficiente. E amaria de verdade se soubesse amar.
Ela riu, uma risada dolorida de quem tem vontade de chorar. Ela tragou cigarro mais uma vez, deixando o mundo continuar rodando enquanto ela não tinha nenhuma resposta. As cinzas se acumulavam no parapeito da janela, enquanto ela admirava uma flor que nascia entre duas pedras do calçamento. De repente até aquela flor tinha objetivos de vida mais definidos que o dela. Por que se perguntassem a ela qualquer coisa naquele momento, ela responderia que seu único desejo era sentar no parapeito da janela e fumar uma carteira inteira de cigarros.

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