quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Eu vou dizer a palavra com B

Eu não existo agora
Sou ser do futuro
Revolução que está por vir

Quem vai dizer a palavra com B?

Eu sou uma predadora
Espero uma vítima
Não se dispa na minha frente

Quem vai dizer a palavra com B? 

Eu só quero atenção
Mulheres sempre dizem isso
Eu não existo

Quem vai dizer a palavra com B?

"Como é lidar com essa ambiguidade?"

A frustração é tanta
que sai em forma de verso

(Depois do modernismo ficou permitido chamar isso aqui de poesia)

E ninguém diz a palavra com B
É que o B não existe.
Para que dizer a palavra com B?
O B nem existe mesmo.
Quem se importa?

Mas eu digo a palavra com B
Bissexual
               Bissexual
                               Bissexual
                                              (Dizem que se você repetir três vezes a palavra bissexual na frente do espelho aparece uma pessoa bissexual para destruir seu monossexismo)

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A gente aqui no Olimpo

É tão lindo dizer que nasceu de uma mesa de sacrifícios cheia de sangue. Ainda escorre sangue do palco, mas não é de cabra. É bem artístico isso de exaltar o sangue. E o sofrimento. E a dor humana - dor de crise existencial, não dor de fome, não dor física. É que a luz que vem de cima cega e a gente esquece de pensar. O poder de estar em cima de um palco faz a gente pensar que pode tudo. A gente não pode, meus queridos. Não somos deuses. Não há nada mais humano do que nós. E o nosso desprezo pelo que outros dizem, e fazem. É que a gente pensa que pode perguntar e responder tudo pela arte. É que a sessão é de graça, então obviamente é popular, não? É que o nosso ego não cabe no mundo, então a gente faz arte pra gente mesmo. Que é pro meu ego bater no teu, e pro nosso ego aumentar. É que a gente lê os clássicos e esquece de aprender. A gente quer ser Prometeu e dar o fogo à humanidade, mas não quer descer do Olimpo. A gente brinca de ser deus e esquece de ser humano. E a gente fica aqui no Olimpo, dançando pros outros deuses. E a gente não consegue admitir que se inspira nos outros, a gente finge que é tudo novo, original. Já sabiam os gregos que se igualar aos deuses não terminava bem, a gente esquece dessa parte. A gente acha que por ir na vila fazer uma apresentação uma vez na vida já viu de tudo e pode falar de todos. A gente acha que é melhor que os outros. A gente gosta de dizer que o mundo nos despreza, que ninguém gosta da gente. E a gente despreza o mundo, a gente não gosta de ninguém. Nós queremos fazer um retrato da realidade, ou criar um mundo completamente novo, mas só aceitamos a nossa realidade, ou o nosso mundo novo. E a gente aqui no Olimpo brinca de criar e inventar, e ser deuses. A gente aqui no Olimpo não olha pra quem está abaixo - a gente sempre acha que os outros estão abaixo. A gente aqui no Olimpo não olha nem pro lado.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

1 e 2

1 - Uma reflexão

Eu me lembro de abraçar a tristeza e a solidão e o constante sentimento de suicídio iminente. Lembro de imaginar a mim mesma morta banhada em sangue pois a vida havia parado de fazer sentido. A ideia da morte que me vigia o tempo todo e só espera a oportunidade de atacar ainda está presente, mas se antes ela era minha sombra, agora ela anda mais afastada. Agora que ela não está tão perto, que não vejo seu rosto em detalhes, não sei mais o quão real ela é. Ela sempre me pareceu tão concreta, tão cheia de existência. Agora não é mais que uma sombra. Me pergunto se ela não é invenção minha. Se nos momentos de solidão eu não inventei para mim mesma uma companheira, alguém que me acompanhasse. Me pergunto se esse sentimento existia mesmo ou era somente uma tentativa de deixar a minha solidão mais poética. Talvez o meu sonho egoísta de deixar uma história, um legado, algo escrito, para as gerações futuras tenha criado essa ilusão de que um dia eu irei deixar esse mundo de maneira poética. É horrível, não desejo a ninguém, é triste, mas existe uma certa poesia no ato, ninguém me fará acreditar no contrário. Talvez eu tenha sido influenciada por tantas poetisas mais talentosas e mais tristes do que eu. Talvez esse seja o sentimento delas, não o meu. Acho que li e absorvi todas aquelas palavras, e resolvi fingir que eram minhas, pra dar sentido aquela solidão. Talvez assim eu conseguisse ser um pouquinho como elas. Eu sempre pensei que era da morte que elas tiravam as suas palavras. Agora, com a morte mais afastada, penso que não. Na vida existe mais poesia. Tanta poesia que elas talvez não tenham aguentado.

2 - Uma oração

I pray to you to keep me alive
To keep me fighting
To keep me loving
Godesses of poetry,
I pray to you to keep me writing.

When in the end of the day
patriarchy wins the round
I pray to you to keep me on the run.

When in the end of the day
I am too tired to write
I pray to you to give me poetry.

When the sun is dark
And I don't want to get up
I pray to you to give me strenght.

Dear godesses of poetry,
Don't let me get weak
Don't let me collapse.

And in my time to go
Don't let me do it with my own hands
Don't let me choose the moment
And let my words behind me
And make sure they will read it.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Rio (ou 10)

1.
Achei que eu era poça suja de cidade grande
Eu não era
Achei que eu era riacho de cidade pequena
Eu não era
Eu sou rio, apenas rio de lugar nenhum

Mas eu sempre quis ser mar
Então eu fui ser rio onde tinha tempestade
Pra fingir que eu tinha ondas
Que nem o mar

Eu sempre quis profundidade
E grandeza
Sempre quis a agitação
E o ir e vir
Sempre quis o pertencer a todo lugar
E a lugar nenhum
Sempre quis ser mar.

2.
Mas eu sou rio
Eu então decidi ser rio em dia de tempestade
Sempre em dia de tempestade
Era assim que eu sabia ser

Parecia mais profunda,
Parecia maior,
Parecia agitada.

3.
Ah, eu sempre me escondi
Atrás dessa grandeza forjada
Queria ser grande, então fingia que era o mar

Só que um dia a tempestade acaba
A minha acabou com a tua chegada

4.
Tu chegou e afastou a minha tempestade
Chegou e varreu pra longe as nuvens de chuva
Chegou e eu fiquei sendo rio
Sem tempestade pra me proteger
Sem nada pra fingir que eu era mar

5.
O que mantinha todo mundo aqui
O que fazia ficarem comigo
Era a tempestade que não deixava irem embora

Eu pensei que sem tempestade tu não ia ficar

6.
Mas não tinha tempestade nenhuma
Eu era só um rio de lugar nenhum
E tu ficou

Tu ancorou teu barco em mim
E ficou.

7.
Ficou e eu percebi que sou rio
Apenas rio
Profunda como um rio
Grande como um rio
Profunda o bastante
Grande o bastante

8.
Percebi que posso ser rio contigo
E seguir meu curso
E apenas fluir
Sem pensar que estou no caminho errado

Contigo não preciso de tempestade
Nem de ondas falsas
Nem de grandeza forjada

9.
E nos meus dias de tempestade
Quando a chuva chega,
E o vento vem junto
É em ti que encontro de novo minha calmaria

10.
Contigo posso ser rio
E ser rio é tão bonito quanto ser mar.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Madalena

Madalena é quem não sei escrever

Madalena é quem nunca fui
Filha das mazelas do mundo
Feita de tudo que há de mais impuro

Madalena vive pelos becos
Pelas bocas
Pelas mãos
Pelos copos
Pelos corpos

Madalena se perde em rima
E em prosa

Madalena se perde em mim
Madalena "é dessas mulheres que só dizem sim"

Madalena é a boca vermelha
O vestido amarelo
O sapato de salto
O samba de final de tarde

Madalena é a boca que grita
O coração que sofre
Os pés que sambam
Os olhos que riem
A lágrima que cai
A beleza que fica

Madalena é personagem
Sempre presente
Sempre ausente

Madalena é todas as putas do mundo
Madalena é ninguém

Madalena é ser invisível
De uma beleza indivisível

Madalena é mulher
Puta
Pura
Bruxa

Dizem eles que:
Madalena é
o pecado encarnado
em forma de mulher

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Sobre apagamento, bissexualidade e apoio

Nós existimos. Apagados. Renegados. Mas existimos. Nas ruas, nas praças, nos becos, na escola, no trabalho, na igreja. Nós existimos, apesar do senso comum nos negar essa existência. Não sei o que há de tão perturbador nessa existência, que é preferível ao mundo negá-la. Não, não somos o único grupo cuja existência é negada. Mas somos o grupo de quem posso falar, e mesmo assim não pretendo falar como grupo. Pois sei somente falar de mim, e não quero aqui universalizar experiências - não, o mundo já faz isso demais. Quero aqui falar de uma experiência, a única que conheço a fundo e da qual posso falar. Quero aqui falar de apagamento, mas não só disso, quero aqui falar de visibilidade. E da necessidade de apoio. Quero aqui falar de existência.

Pessoas bissexuais existem. Desculpem a repetição, mas ela é necessária. Necessária, pois eu mesma por muito tempo não acreditei nisso. Necessária, pois é preciso lembrar ao mundo sobre isso. Necessária, pois é preciso dizer a outras pessoas bissexuais que elas não estão sozinhas. Necessária, pois é preciso lembrar constantemente que nos apagar não elimina nossa existência. Bissexuais existem como qualquer outro ser humano, não são especiais de nenhuma maneira diferente. A bissexualidade por si só não altera caráter, nem transforma ninguém em nada. Bissexualidade não é poligamia, não é necessidade de sexo o tempo todo, não é infidelidade. Não é a maioria dos preconceitos que são espalhados por aí - pois não basta nos negarem a existência, é preciso que quando admitem que existimos nos transformem em um esteriótipo. Bissexualidade é atração por pessoas do mesmo gênero, e de gêneros diferentes que o seu. Cada pessoa bissexual experiencia essa atração de uma maneira diferente. Não existe um único discurso legítimo sobre bissexualidade. Não existem bissexuais verdadeiros, e outros falsos.

E é a partir dessa ideia falsa de que existem bissexuais mais verdadeiros que outros que começa o meu relato pessoal. Esse discurso não foi o único que me agrediu durante anos, mas foi um deles. A ideia passada por ele é que existem pessoas - principalmente mulheres, segundo a minha vivência - que não são realmente bissexuais, apesar de o dizerem. Cria-se uma narrativa legítima sobre bissexualidade, e padrões nos quais as pessoas bissexuais devem se encaixar. Como uma adolescente de 14, 15 anos, que está descobrindo detalhes sobre sua sexualidade, se sentiria ao ver esses padrões serem impostos? Ao ver esse discurso ser perpetuado? Nada bem, eu respondo, no meu caso. Perceber, não ainda admitir, que sente atração por mais de um gênero, é difícil em meio a tudo isso. Passei por um periodo de negação que não recomendo a ninguém. Periodo que afetou meu desenvolvimento emocional, minha relação com as pessoas, e principalmente minha relação comigo mesma. Negava o que eu sentia, mas não deixava de sentir, não deixava de ter dúvidas. Eu percebia uma certa não-heterossexualidade, mas não sabia se poderia chamar de bissexualidade. Já que quando - raramente - falavam de bissexuais era sempre para falar sobre como alguém não era realmente bissexual. Eu nunca me encaixei no padrão 50/50 de atração, metade atraída por mulheres, metade por homens, e muito menos na binariedade disso - descobri depois que não sou só eu, e que essa binariedade é muitas vezes presumida por pessoas não bissexuais. Foi um longo caminho de dúvidas até minha auto-aceitação - que só foi completa depois que me envolvi com o feminismo.

Depois de admitir e aceitar a minha bissexualidade, encontrar o termo foi de extrema importância. Eu tinha agora algo com o que me identificar, um grupo a quem pedir apoio caso precisasse. Encontrar apoio em um mundo que te nega existência é fundamental. Penso as vezes em como poderia ser mais confortável me dizer lésbica nesse momento - pensando que ninguém duvidaria disso - e muitas vezes não corrijo as pessoas quando assumem que sou lésbica, corrigir as pessoas o tempo todo é algo que cansa. O que me faz não me acomodar nisso é o fato de que existem outras pessoas bissexuais que podem estar passando pelo que eu passei, e é importante que elas saibam que nós existimos. A vida teria sido mais fácil se tivessem me dito que eu poderia existir, e não precisava me encaixar em padrão nenhum. Não sei o quanto isso é politicamente expressivo, ainda não pensei sobre o assunto, mas ele é sem dúvidas necessário.

Não vejo a bissexualidade como apenas um ato político, ou posição política, como percebo em alguns discursos. Claro que se desviar da norma mono e heterossexual pode ser visto como uma atitude política, e pode ser uma atitude política, mas não é somente isso. Reduzir uma sexualidade a um ato político me parece limitador. Não existo para ser exemplo de como transgredir a norma. Não existo para ser modelo de subversão. Minha sexualidade não é só isso. Existe também o que não é político, o que não é subversão. E cansa precisar transgredir o tempo todo. Cansa. Transformar a bissexualidade em um ideal político não é o que eu quero. Não nego que pode ser uma posição política me afirmar como bissexual em alguns momentos, mas as vezes tudo que eu quero é ser quem sou sem precisar pensar nos efeitos políticos disso.

Se até hoje não desisti de continuar falando é porque penso em quem precisa ouvir. Não necessariamente para quem quer se educar, ou deixar de lado preconceitos. Mas principalmente para quem precisa de apoio, para quem procura onde se encaixar - as vezes tudo que queremos é nos encaixar em um grupo para saber que não estamos sozinhos. As pessoas bissexuais existem, e não estão sozinhas.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Zelda

Se eles pudessem nos colocariam todas em sanatórios, e nos deixariam lá até que o fogo nos consumisse. Como o fogo consumiu a mulher do quarto ao lado do meu. O fogo consumiu muito mais naquele 1947, mas principalmente aquela mulher. Ela gostava de dançar, dançava por horas a fio. Sempre dopada de remédios. Ela tinha esse brilho nos olhos de quem tem fogo guardado dentro do peito. Era louca de pedra. Louca como eu. Éramos todas loucas, somos todas loucas. Ela ria escandalosamente todas as vezes que contava a história de quando chamou os bombeiros, e disse a eles que o fogo estava dentro dela. Ela era o fogo. Escreveu um livro em seis semanas, todo aquele fogo virando palavras e histórias. Era louca. Ninguém me ouviu quando eu disse que o fogo tinha começado no quarto dela. "Impossível." O médico disse, o policial disse, todos disseram. Ninguém acredita nas mulheres - loucas ou não. Essa foi uma lição que eu aprendi anos antes de ir parar naquele lugar, e que ela nunca aprendeu.
Eu sei que o fogo começou no quarto dela. Começou dentro dela. Quando ela dançava, completamente dopada de antidepressivos, o fogo saía dela. Era como mágica. Ela dançava e o fogo dançava junto. No balé mais bonito que eu já vi. Ela era o fogo. Tanto que foi consumida por ele. Morreu daquele fogo que tinha guardado dentro do peito. Nenhum bombeiro conseguiria acabar com aquele fogo. Nenhum antidepressivo. Nada. Viver a sombra do marido famoso não apagou. A maternidade não apagou. Ser internada não apagou. Ela deve ter dançado tanto naquele dia, e devia estar tão dopada, que desistiu de controlar o fogo, deixou ele sair sem controle nenhum. Ela tinha tanto fogo dentro dela que um dia teve que sair de vez. Saiu incendiando tudo. O fogo dela não poupava ninguém, nem ela mesma. Me poupou por um golpe de sorte. Eu não estava no meu quarto, deveria estar, pro fogo dela me consumir também. Não me perdoo por essa falha, deveria estar lá e ser consumida pelo fogo como todas as outras. Pelo fogo dela, pelo nosso fogo. Por nós mesmas.